- Sua velocidade e coordenação são fenomenais, mas não me impressionam, Srta. Daiki!
Chan e Kioru precisam se coordenar muito naquela manobra aérea para não cair de vez. Mas os dois conseguem restabelecer o vôo... E investem novamente contra o inimigo.
Sir Ezekyel era um cavaleiro dos céus relativamente pouco experiente, mas diante da Wenhajin, que estava em seu primeiro ano, ele e seu grifo Bastyan levavam vantagens. Considerando que Sir Ezekyel era cavaleiro da corte Kjeriana há mais de vinte anos quando se postou a serviço de Yius, não teve muito trabalho para adaptar suas técnicas em solo para o combate nos céus.
- Não se lamente ao ser derrotada, Milady! - fala o Cavaleiro, que com uma finta evita o ataque de carga e o avanço de Kioru. - O Grifo leste me contou de você! Excepcionalmente letrada, e conjuradora de magia divina! Ninguém pode ter tudo ao mesmo tempo!
Kioru, vendo seu alvo agora o perseguindo, fecha suas asas e deixa a gravidade agir, envergando com o dorso para baixo. Parecia exposto, e Bastyan acelera para tirar vantagem daquela aparente vulnerabilidade. Ezekyel apontava a lança de treinamento - madeira maleável com ponta emborrachada - para atingir sua adversária.
Kioru deixa seu oponente mais veloz atingi-lo, e firma com as garras de águia nas asas de Bastyan. Como um golpe de judô, o Grifo de Chan inverte a situação, deixando o dorso de Bastyan e o cavaleiro kjeriano na direção do chão.
Tranquilamente, Ezekyel usa sua lança para soltar as garras de Kioru e os dois grifos se afastam. Quando Ezekyel percebe que Kioru não estava com sua amazona, era tarde demais.
O grifo do Kjeriano ainda tinha velocidade, enquanto a cruzada de Asura usava seu dom de queda suave para se aproximar. Bastyan chega a piar alertando, mas em poucos segundos a wenhajin os alcança, e o orgulhoso cavaleiro dos céus se via imobilizado pela lança de treinamento de Chan... No dorso do seu próprio grifo.
- Não se pode ter tudo, Sr. Ezekyel. - retruca a cruzada.
- Sua opinião, sacerdote Poe... - pergunta o Mestre Flinster.
Sir Poe era um representante do alto clero. Mestre na diplomacia internacional acabou sendo versado nas obras de geopolítica de Meliny, o que o levou a cada canto do mundo. Era mais viajado do que qualquer Pena-de-bronze em atividade.
- As cantigas falam "Nos cumes que pintam-se de branco com a chegada de Noror foi feito seu ninho". - relembra ele. - Há leve vulcanismo na sub-cordilheira de Bornea, mesmo sem ser ligado às montanhas de fogo e gelo do norte da Kjéria... É possível que provoque um desgelo nos cumes.
- Então por quinhentos anos procuramos em regiões de clima mais ameno quando deveríamos ter insistido para o norte! - pragueja Flinster.
- Quando perdemos o domínio do Ninho das Águias nos comprometemos encontra-lo por nós mesmos. - observa Poe. - A amazona Asuka Daiki nos trouxe um rabisco num mapa que segundo ela foi apontado por um Anjo de Luminahak. Pondero se estaríamos desfazendo nossa promessa com uma informação vinda dos céus...
- O anjo Yssamael estava preso pelo próprio Luminahak na forma humana. - fala o cavaleiro do grifo norte. - A meu ver ele não era celestial, apesar de trazer "pistas celestiais".
- Bem... Se quiser mesmo investigar a região, aconselho apressar-se... - fala Poe. - Essa região é por demais instável. Possui uma disputa interna e Kjéria pousou seus olhos na região. Se os Kjerianos tomarem o poder e sonharem com o que há escondido naquelas montanhas, talvez jamais recuperem o Ninho.
Kioru e Bastyan pousam nos poleiros do monastério. Ainda não havia dado o Toque do Silêncio, o que garantia um último cumprimento.
- Você não lutou como poderia, Sir Ezekyel. - fala a Wenhajin. - Foi fácil demais domina-lo.
- Tenho muitos anos de cavalaria, milady. - Fala ele, sem sequer abalar-se com a indiscrição. - Quando usava armadura do Kzar, jamais ousaria erguer a mão contra uma dama. Esse hábito será difícil de perder.
- Então, prometo ajuda-lo a suplantar essa falha, se me ensinar aquela finta rápida. - sorri a wenhajin. - Teria ajudado muito quando combatemos Drakentar.
- Amanhã, Milady. - fala o cavaleiro, prestativo e direto. - Ainda tem algumas semanas antes de voltar às viagens, creio eu.
- Pela manhã. - insiste ela, desconversando. - Serei levada ao Sacerdote Balthazur antes do almoço.
Os dois se despedem brevemente e seguem em corredores opostos. A ala feminina era sensivelmente menor no monastério, pois não mais que três amazonas penas-de-bronze foram escolhidas por vez. Naquela geração, apenas Chan ocupava aquele setor do prédio no penhasco, sem estradas ou outro acesso conhecido senão pelos céus.
- Percebe que acabou de estimular um homem a espancar mulheres?
A cruzada de Asura curva cerimoniosamente quando a presença imponente de um senhor de barbas e cabelos brancos surgia no corredor, ornamentado com armadura negra e dourada e um par de asas impecavelmente brancas em cada pena. O Deus da Justiça parecia terminar uma breve caminhada quando surge diante da wenhajin, e olha ternamente enquanto ela se curvava.
- Acha que fiz errado, meu senhor? - pergunta ela.
- Não... - fala o líder do panteão, sem mudar sua expressão paternal. - Uma donzela com uma arma na mão é um oponente que não se deve ignorar. Você mostrou isso a ele. Falava que tanto na cultura cavalharesca como em sua terra natal há tabus e receios quanto às mulheres
- Não acontecerá de novo, meu senhor.
- Não é uma repreensão. - fala Yius, ajudando-a a alevantar. - Apenas uma constatação. Os tempos mudam... A sociedade muda... E mais cedo ou mais tarde os carvalhos centenários se curvarão aos ventos. Você é esse novo sopro, Asuka-chan. Eles estão receosos, mas deverão aprender e aceitar.
- Por isso se oculta dos olhos de meus companheiros de ordem? - pergunta a Wenhajin. - Na Cruzada não parecia se importar em ser flagrado...
- Está entre seguidores incondicionais da Ordem e da justiça. - fala Yius. - Enquanto... É saudável que aventureiros como Saldintrais, Destreza e Pesligeiros que lembrem-se que estamos... Observando.
- O sino... - pondera Chan. - Está ... Demorando para o Toque de silêncio...
- Porque há um assunto ainda a ser tratado. - fala Yius. - Devem esperar você no Salão norte. Apresse-se.
Flinster do Vento norte, Yehak do vento sul, Asmodeu do vento Oeste, e o tutor da amazona wenhajin, Mestre Grymmah do Vento Leste encontravam-se no salão e acabavam de enviar o senescal buscar a Wenhajin quando Chan adentra os portões surpresa. Os quatro líderes da Ordem dos Penas-de-bronze encontravam-se reunidos. Além dos quatro, estavam lá Sir Poe dos Senhores da Lei e Sir Ezekyel.
- Shalaay sussurrou em seus ouvidos, amazona. - fala surpreso Grymmah. - Aguardávamos sua chegada.
- Não acredito que tenha sido o Advinho, mestres. - adianta-se ela respeitosamente, encarando o olhar duro de Ezekyel e Poe. - Algo está errado?
- Não... Na verdade, há muito não está tão certo. - fala mestre Flinster. - Sir Poe veio com a decisão de uma das duas tarefas que propôs à ordem.
- A absolvição de Spaniel?
- Esta epístola ainda encontra-se com o Rei Glandar, que deverá ponderar muito se desafiaria os nobres gaurianos. - informa Asmodeu. - Eu mesmo a entreguei, e confio em Yius que ilumine a decisão do rei de Gargurus.
- O Sumo-sacerdote estuda a incursão, Amazona. - adianta Flinster. - Em poucos meses será organizada uma incursão pela cordilheira de Bornea atrás da indicação que nos trouxe. Ainda este ano é possível que encontremos o Ninho das Águias. A fortaleza esquecida da Guerra da Magia.
- Estou muito feliz por ter tido uma pequena participação, meus mestres. - fala Chan sem esconder um sorriso esperançoso.
- Sua participação será maior nesta reconquista, Amazona. - fala Sir Poe. - Bornea é cobiçada por Kjéria que mesmo em crises internas busca ampliar território. Se Bornea cair nas mãos do Kzar, talvez não recuperemos os tesouros lá guardados... Bem como a honra e memória dos que sucumbiram à insanidade de Donaire.
- Perdoe-me sacerdote Poe... Mas insinua que neguemos ao Kzar conhecimento de nossas intenções em Bornea?
- Bornea pertence ao Grande Branco, Cavaleiro Ezekyel. - fala Yehak. - Sem uma unidade política reconhecida, não há quem tente ficar contrário a nossos interesses. Mas uma vez que o Kzar esmague os defensores locais... Sua sede de glórias não diminuiu sequer com o fim da Guerra de Felgoz. Os segredos da mais antiga Ordem de Yius merecem estar conosco, e não expostos em um museu ou ornando uma câmera de tesouros de guerra.
- O regente é soberano em suas terras, senhores. - fala Ezekyel.
- O Direito dos deuses suplanta qualquer outro, Cavaleiro. - fala autoritário Asmodeu. - É o primeiro Bastião! E esse foi o nome que o senhor usou para batizar sua montaria sagrada. Sabemos que há conflitos entre sua vida mundana e sua nova Ordem, por isso deverá aprender a se despir de posturas tendenciosas.
- Por isso enviará a novata comigo? - encara o cavaleiro. - Nada em absoluto contra Milady Chan, mas a missão só exige um Pena-de-bronze. E pela prioridade, deveria ser algum protegido pelos Ventos do Norte como eu, e não por um dos ventos do Leste... Além do mais, eu sou um nobre Kjeriano! Teria mais força política se necessário for.
- Asuka-Chan é mais versada que o senhor nas Leis dos Homens, e foi quem descobriu a nova localização do Ninho das Águias, Cavaleiro. - fala Flinster paciente. - Por isso ela vai. Asuka-chan ainda está em processo de reconhecimento, e suas virtudes auto-indicadas não é ignorada por nós. E estarão entrando em zona de possível conflito. Por isso dois de vocês vão.
- O conflito não é declarado, mestres. - fala a Cruzada. - E por mais grata que eu seja pelo reconhecimento, há um ponto nos argumentos de Ezekyel... Poderá haver conflito de liderança.
- Ezekyel é Cavaleiro formado, Milady. - Continua o Cavaleiro do Grifo Norte. - Ele ouvirá com respeito e sabedoria suas observações e decidirá o que for melhor. Pela manhã, equipamento e recursos estarão à sua espera na Ala Norte.
- Devemos buscar aventureiros, mestre? - pergunta o Kjeriano. - Meus antigos companheiros vivem não muito longe de Bornea...
- Somente se for imprescindível, Ezekyel. Não sabemos com certeza que é o local correto... E não podemos deixar exposto o interesse de Jus por um território tão afastado.
O cavaleiro encara os sacerdotes longamente, e enfim se curva.
- Seremos os Olhos e Ouvidos de Yius, como prometi em meu ingresso, mestres.
- Considerem o Toque de silêncio e dúvidas que por ventura tiverem serão sanadas com o alvorecer. - fala Asmodeu. - Procedam com as orações e com o Sono, e até o alvorecer. Fiat Jutitia.
Todos repetem o cumprimento Fiat Jutitia enquanto os sacerdotes se separam. Nenhum som mais poderia ser feito até o alvorecer. A wenhajin se sentia desconfortável com a missão... Parecia uma provocação a Ezekyel. Com o número mundial de cavaleiros dos grifos sagrados não superior a quarenta, não seria como na Cruzada.
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